Amor - Clarice Lispector
Os contos dos anos 60 foram marcados pela abordagem de conflitos psicológicos e crises de identidade. Em geral, os autores dessa época buscavam traduzir com dramaticidade e riqueza metafórica as crueldades do mundo real. E “Amor” de Clarice Lispector transcreve muito bem essa busca por mostrar o mundo como ele é.Por muitos anos Ana se deparou com situações inalcançáveis que provocavam nela grande exaltação e uma certa felicidade, que ela considerava de tão grande, insuportável. Cansada de viver assim, a mercê das emoções e sempre com os desejos fora do seu alcance, Ana resolveu trocar toda essa “instabilidade” por uma “firme vida de adulto”. Ela acreditava que era possível viver sem felicidade e assim levava a sua vida.
Agora, dona de casa, casada e com dois filhos, Ana não esperava e não queria esperar mais nada da vida. Estava satisfeita com a vida estável que levava. Ana escolhera e quisera viver assim: tranqüila e fixa.Foi então que, enquanto voltava para casa de bonde, viu um cego, um cego que mascava chicletes. Esse momento vai ser desencadeador de uma “perigosa” vontade de viver que ela achou dentro de si. Era o amor que ali ressurgia; no entanto, para ela era o mal que estava feito.
“Amor” conta a melancólica estória de Ana que se acostumou a viver sem felicidade e se conformou em conviver, dentre de si, com uma velhice prematura.Clarice é precisa, apesar de metafórica, no relatar dos sentimentos, das confusões psicológicas, das incertezas emocionais, da tranqüilidade indesejada, do nojo e do fascínio pelas “novas-velhas” sensações, pelo rompimento dos dias forjados que levava nos quais era feliz em não discordar e estava sempre disposta a não ver defeitos.
Clarice metaforiza com a sensibilidade e competência que lhe são inerentes as tantas pessoas (não só mulheres) existentes nesse mundo real e cruel, que são inculcadas com a idéia de que é melhor viver sem felicidade do que instavelmente com amor. Mais do que isso, Clarice critica a preguiça e o conformismo que muitas pessoas têm e que, por isso, acabam por simplesmente existir, abandonando e apagando aos poucos a chama da vida.
Vale a pena se deliciar das palavras tão belas e simultaneamente tristes que perfeitamente transcrevem a realidade e os conflitos psicológicos que Ana carrega. Após a leitura é inevitável pensar como o conto de Clarice Lispector em nenhum momento se torna ultrapassado e quantas “Anas” ainda existem no mundo de hoje.
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